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Os BLEEDING DISPLAY são uma banda de Lisboa em franca ascensão. A autora da entrevista reuniu-se com dois membros da banda [Sérgio e João] após a sua actuação no III GAIA METALFEST [reportagem brevemente disponível], a 6 de Setembro do corrente ano. Deste encontro resultou uma longa conversa relacionada com assuntos da banda e outros temas não tão óbvios e mais abrangentes. Aqui fica o relato da experiência.

 

Morgana

 

Back to the Grave - Hoje temos, ao vivo e a cores, os BLEEDING DISPLAY, de Lisboa. Antes de mais, querem fazer as apresentações?

   

Sérgio - Eu sou o Sérgio, vocalista.

 

João - Eu sou o João, guitarrista. Os membros que estão ausentes são o Juca (bateria) e o Alex (baixo).

 

 

BTTG - Como surgiu a ideia de criar o projecto BLEEDING DISPLAY - actualmente já consolidado como banda? Que condições foi necessário reunir para que a banda tivesse atingido terra firme?

 

Sérgio - Foi como com os milhões de bandas que existem em Portugal: começámos por brincadeira, houve mudanças de formação, começámos a construir músicas. Entretanto, surgiu a oportunidade de dar um concerto, vimos que realmente as pessoas estavam a gostar e nós próprios começámos a mostrar cada vez mais interesse e empenho. Ao fim de 4 anos, vamos tentar levar isto mais à frente, tentando dar cada vez mais concertos e mais músicas.

 

 

BTTG - Numa mini-entrevista à «Smalltalk» [webzine alemã], o João confessou que este line-up é muito satisfatório. De que modo se nota esta simbiose?

 

João - Para mim, este line-up é o ideal: 4 pessoas, muito amigos uns dos outros. Não é só o trabalho de estúdio, estar a ensaiar e a fazer músicas - é amizade; sair, beber, ir curtir.

 

 

BTTG - Ou seja, para ti, a banda é, essencialmente, amizade + trabalho?

 

João - Essencialmente amizade e diversão.

 

Sérgio - Claro, porque, se tu não te dás bem com as pessoas com quem estás a tocar, dificilmente as coisas resultam. Tanto é que podemos ver algumas bandas que começam, têm grandes perspectivas de futuro, e depois, passados uns concertos, acabam – e ninguém percebe por quê. A minha explicação é: divergências entre eles.

 

 

BTTG - E falta o ambiente propício...

 

Sérgio - E falta o ambiente, claro. Quer se queira, quer não, tem que se ter sempre ‘aquele ambiente’.

 

 

BTTG - Em termos de distribuição de trabalho na banda, há funções discriminadas para cada membro?

 

Sérgio - A nível das letras, eu sou um bocado egoísta. Sou um ditador e não sei quê, mas estou encarregue disso. Agora, a nível de música propriamente dita, todos nós damos a nossa opinião e ajudamos a fazer as músicas: o João aparece com uma ideia, o Alex com outra. Por vezes, há acordo; outras vezes não.

 

 

BTTG - Sendo tu o letrista, que tipo de influências consideras ter? Há algum tipo de literatura específica (não necessariamente sangrenta) que te marque?

 

Sérgio - Absolutamente nada. Não temos nada a ver com cenas satânicas, gore, matar criancinhas, nem nada desse género. Temos apenas a ver com crítica social como uns NAPALM DEATH, mas nós baseamo-nos mais na crítica à igreja e a todas as religiões. Acho que é a religião que leva a tantas guerras e a tantos problemas que andam por aí.

 

 

BTTG - É, portanto, uma ditadura do ‘ama o próximo’ que gera intolerância… No fundo, é tudo hipocrisia.

 

Sérgio - Claro que é tudo hipocrisia. É tudo para o bolso. Falo também sobre auto-estima, sobre a existência humana. O conceito «BLEEDING DISPLAY» não quer dizer aquele conceito gore completamente ultrapassado de matar, de corpos estripados. Respeito as bandas que o fazem, mas nós apenas criticamos todas as formas de fanatismo: a igreja e o oposto (satânicos que queimam igrejas). Pensam eles que vão queimar igrejas, mas não vão nada.

 

 

BTTG - Nesse caso, qual é o significado profundo de «Bleeding Display»? De que modo representa este termo o conjunto de aspirações e essência da banda?

 

João - «BLEEDING DISPLAY» tem dois conceitos: um muito à pele, muito directo, e outro mais pensativo. O «Display» torna-se um mecanismo de fazer sangrar e a imagem evocada consiste numa pessoa que tem um interruptor. Basta carregar no «ON» e faz sangrar - esse é o conceito directo. E o outro faz sangrar no pensamento, na alma e faz correr o sangue, a dor, a agonia.

 

 

BTTG - Gostava, agora de vos fazer uma pergunta bastante controversa em Portugal. O que significa, para vós, o conceito «Underground»? Fazendo uma retrospectiva e comparando com o ambiente que se vivia há uns anos, consideram que este estagnou, desapareceu, aumentou ou meramente se transformou?

 

Sérgio - O Underground actual em Portugal é tipo aquelas preguiças do «National Geographic»: está lá na árvore, existe - mas não se mexe. Temos o caso das centenas de concertos que há por aí: uns apresentam 200 ou 300 pessoas (nos quais nós já participámos) e outros têm 50, 30 pessoas (também já participámos nesses). Sinceramente, não percebo. Confesso que vou a todos os concertos que posso ir, para apoiar as bandas, inclusivamente bandas de que nunca tinha ouvido falar na vida ou de cujo estilo nem gosto particularmente. Mas olha, estou lá, respeito e gosto de ver. Mas o conceito «Underground», em Portugal, de uma certa forma é bom, porque há sempre movimento, há sempre alguém a mexer-se. Posso dar o exemplo de ti, de nós, que estamos sempre a contactar pessoal. Só que são poucas as pessoas que dão aquele passo, que tomam a iniciativa. E, às vezes, quando se toma a iniciativa, não se tem aquela adesão de que se estava à espera por parte das pessoas, e compreendo por que é que as pessoas não gostam de se mexer. Mas o underground faz parte disso – às vezes não resulta.

 

 

BTTG - A meu ver, em essência e pureza, o «Underground» português (o que acaba por me ser mais próximo) tem tido tendência, nos últimos anos, para entrar em declínio e dificilmente voltará a ser o mesmo - se é que algum dia o será. No entanto, vislumbra-se, claramente, um renascer do movimento em termos de bandas e, lentamente, de iniciativas (festivais e por aí).

 

Sérgio  - Posso-te acrescentar algo mais: enquanto existirem pessoas como nós e como tu, eu acho que o underground nunca vai morrer, a menos que eu me case com uma bruxa qualquer que não me deixe sair de casa ou coisa do género. [risos] De resto, acho que vou continuar sempre a apoiar as bandas, a organizar concertos, porque, de certa forma, além de nós gostarmos de dar concertos, também gostamos de ver bandas que têm valor e não gostam de se mexer, e nós gostamos de espicaçar essas bandas. Para ser sincero, já estamos um bocado fartos de dar aquele empurrão às bandas, porque depois não colaboram connosco da maneira que nós gostaríamos. Lá está: às vezes resulta, e outras vezes não. Mas, enquanto existirem pessoas como eu e o João, acho que o Underground não vai morrer - pelo contrário.

 

João - Obrigado. [risos] Aliás, acho que Portugal é um país que só tem bandas Underground. Não há nenhuma banda, tirando os MOONSPELL, que seja muito conhecida internacionalmente. As bandas conhecem-se umas às outras, há bandas muito, mas muito boas em Portugal, mas não deixam de ser todas Underground. E uma coisa muito bonita é, por um lado, as bandas conhecerem-se todas umas às outras, trabalharem juntas, querem desenvolver. Há excepções que realmente não o querem, infelizmente; parece que querem é andar para trás. Mas a maior parte tenta sempre ajudarem-se umas às outras - emprestam material, et caetera. Tocamos uns para os outros, por prazer.

 

Sérgio - O que se passa no nosso país é que ninguém quer apostar nisto. E, como não há aquela aposta em concertos, há logo aquele corte. Ainda agora vi aqui a polícia, a ver o que é que se passava. Gadelhudos, vestidos de preto, pronto… há logo essa tendência para cortar logo o mal pela raiz. Mas não, aqui não se faz nada disso. E mesmo a malta jovem - e vejo o exemplo do meu irmão, 4 anos mais novo do que eu - é completamente inundada pela MTV. E dizem [acerca do metal - M]: ‘Ah, não tenho paciência. Isso é barulho…’

 

 

BBTG - De certo modo, acabam por se deixar absorver pela cultura de massas e perdem um pouco do espírito crítico que os deveria caracterizar, até pela própria faixa etária em que se inserem.

 

Sérgio - Claro, é mesmo isso.

 

João - Eu acho que isso vai da consciência, do feitio, da educação da pessoa. Para mim, as pessoas tornam-se limitadas a ver televisão e a consumir a música que lhes dão, porque é muito comodismo, preguiça. Não se querem conhecer, expandir.

 

 

BTTG - Há pouco, mencionaram algumas bandas portuguesas que estão em franca ascensão. De entre estas, gostavam de mencionar algumas em particular?

 

Sérgio - Eu acho que todas as bandas com as quais já tocámos até hoje são absolutamente brutais, de uma certa forma, porque lá está, têm a técnica, têm o feeling, têm aquele empenho, a vontade de ensaiar, de dar concertos. Posso dar-te o exemplo de… MORBIUS, AGONIZED, NECROSE - foram as últimas bandas com as quais participámos em festivais [ACAMPA ROCK, Paredes, 2003.08.15 - Reportagem brevemente disponível - M]. São bandas que nos caíram completamente no goto, que adorámos. Bandas de Lisboa são várias: CRONAXIA, GROG…

 

 

BTTG - Naturalmente… os eternos e omnipotentes.

 

João - [risos] É isso. Há muitas bandas em Lisboa.

 

Sérgio - E grandes bandas. É uma questão de o pessoal se unir de uma vez por todas e de deixar as rivalidades de parte - ou porque um anda com a namorada do outro, ou porque o outro toca melhor do que eu e eu não vou ver o concerto porque ele tem uma guitarra melhor que a minha - são rivalidadezinhas, e eu acho que a música não tem nada a ver com isso. São coisas que não me entram na cabeça.

 

 

BTTG - Acaba por ser pensar em função dos outros, e não em função do próprio, ou da própria banda. De momento, os BLEEDING DISPLAY encontram-se em mini-tournée. Como surgiu a oportunidade de levar a cabo esta iniciativa?

 

João - Partiu de um contacto que eu tive com uma pessoa do Norte, que toca nos THE HOWLING - muito boa banda. Eles já tinham sido convidados por uma banda brasileira [ANTIDEMON – M] para tocar em Espanha e, entretanto, surgiu a oportunidade: havia espaço para mais uma banda e eles convidaram-nos. Claro que nós aceitámos, como sempre aceitamos. O som dos brasileiros é espectacular. Adorámos. Estivemos em Espanha, em Pontevedra, Vigo, em V. N. Gaia, e agora vamos para Lisboa.

 

 

BTTG - Foi precisamente no âmbito do festival de Gaia [III Gaia Metalfest ~ M] que tive a oportunidade de vos entrevistar pessoalmente. Coadunando a vossa impressão relativamente a este festival com a generalidade dos festivais que têm sido organizados em Portugal, que balanço fazem?

 

Sérgio - Eu espero que mais alguém oiça ou veja ou leia isto: de uma vez por todas, não ponham os bilhetes tão caros! Porque o português é aquele povo que gosta de dar pouco por aquilo que vale a pena e não se importa de dar muito dinheiro, sei lá, 15 ou 20 €, para se embebedar. Mas, para apoiar e ver uma banda, pensa logo que não vale a pena, percebes? De uma vez por todas, ponham os bilhetes mais acessíveis! Vai um bocado ao encontro dos CD’s: qual é a razão para um CD custar tanto? Actualmente, com as tecnologias que há, com a Net, com o acesso fácil às músicas, qual é o motivo de ainda haver CD’s a 15, 20 €? Que disparate é esse? E como é que eles esperam que as pessoas vão ver concertos com bilhetes a 12,5 €, que é o caso agora de Gaia? Querem milagres?

 

 

BTTG - Principalmente porque, por vezes, as pessoas até têm consciência que as bandas que gostariam de apoiar não vão receber nenhum. Além do mais, pagas muito para assistires a um festival com pouquíssima afluência, o que acaba por condicionar fortemente a tua impressão relativamente ao todo.

 

Sérgio - Não há banda nenhuma que não goste de dar concertos com [muitas] pessoas e com público a apoiar, a aplaudir, a mexer-se. Agora, também custa um bocadinho ver os bilhetes a esse preço. Mas não faz sentido nenhum estar a culpar a organização, porque eles, em parte, até estão a tentar organizar uma coisa fora do normal, a puxar um bocadinho mais. Que seja mais divulgado, mais importante: o «Gaia Metalfest». Mas não resulta, porque eles têm que começar por baixo, devagarinho e, acima de tudo, divulgar

mais as cenas. Não houve aquela publicidade que deveria ter havido, explicações, nada. Mais uma vez, o preço dos bilhetes, e acho que o sítio se calhar não é o mais indicado - digo eu, que não sou daqui [da Área Metropolitana do Porto ~ M]. Pelo que vejo, os acessos também não facilitam muito - não sei como estão servidos de transportes públicos. Mas os espaços escasseiam cada vez mais.

 

João - Mas, em geral, concertos e festivais até há bastantes em Portugal. E muitos deles têm bastante gente. Aliás, se há um concerto bem ‘Underground’, com bandas mais conhecidas, há sempre gente lá, seja no Porto, em Lisboa ou no Algarve. O que é um bom sinal, mas há sempre excepções, é claro.

 

 

BTTG - Mas, no fundo, o que é primordial para o sucesso de um festival não é só a escolha das bandas, mas também passa muito pela divulgação. No caso deste festival, o cartaz ficou confirmado uma semana antes do festival, o que, obviamente, não deu tempo absolutamente nenhum para poder promover uma campanha eficaz de divulgação.

 

Sérgio - Pessoalmente, não conheço metade das bandas que estão em cartaz. Espero conhecer hoje, e espero ouvir. Por acaso, agora está a tocar uma banda e eu não estou a conhecer.

 

 

BTTG - São os HEAVENWOOD.

 

João - E eu não estou a ver aquilo… Curto bué os gajos!

 

Sérgio - Fica para a próxima. Mas o que eu acho é que as bandas gostam de ser contactadas, de dar concertos, mas também gostam de uma certa antecedência, para poder haver espaço de manobra, para poder avisar os amigos, o pai, a mãe, o tio, a avó, quem quer que seja, para ir ao concerto. Se for só aquela publicidade pontual… Hoje em dia, em Portugal, tem que se invadir tudo o que é possível: telefonar, mandar mensagens (e nós que o digamos - quando damos um concerto, só em dinheiro gasto em mensagens, fliers e cartazes, é um balúrdio). E só à última da hora é que elas [as pessoas] dão a confirmação - o nosso público é mesmo assim: ’Deixa-me ver se não tenho mais nada para fazer... Ah, vamos lá.’

 

 

BTTG - É a velha história: a intenção é muito boa, mas falta a estratégia, os conhecimentos de marketing, se assim lhe quiseres chamar.

 

João - Sem dúvida nenhuma.

 

 

BTTG - Mudando agora ligeiramente de assunto… Quais são, por alto, os vossos álbuns e bandas de referência?

 

Sérgio - Eu posso falar já por mim. Sou um bocado suspeito, porque gosto de vários tipos de música. De uma certa forma, nunca me hei-de enjoar de música, porque eu respiro, durmo, estou na casa-de-banho e tenho que ter sempre música. Preciso mesmo de música, faz-me falta. Mas dentro do metal, bandas de eleição (não posso estar aqui a falar em álbuns)… IMMORTAL, DYING FETUS, DEICIDE, SEPULTURA, que me marcou muito (foi a primeira banda que eu ouvi), sei lá… Mais dentro do Black Metal, DIMMU BORGIR. Os estilos são bastante variados.

 

João - No meu caso, metal, em casa, oiço muito pouco, e se calhar menos do que o que devia - oiço muito no meu trabalho. Bandas de eleição, para mim, começam nos IRON MAIDEN, sem dúvida nenhuma, vão pelos grandes CARCASS, que estão no meu coração, pelos DEATH e Chuck Schuldiner - isto nas bandas mais antigas. Hoje em dia, são os DYING FETUS, ORIGIN, CRYPTOPSY, uma nova vaga de Death Metal Brutal, extremamente técnico, e é um lado de que gosto muito no metal. Por acaso, não oiço muito outros géneros de música. Gosto um bocado de industrial - adoro SAMAEL antigo e recente; gosto muito de Doom Metal…

 

 

BTTG - My Dying Bride…

 

João - Ai, MY DYING BRIDE é aquela banda. É mesmo do coração.

 

Sérgio - O estado de espírito das pessoas é que leva a ouvir estas músicas.

 

João - E gostava de salientar que gosto muito de NICK CAVE. É mesmo aquele gajo completamente passado da cabeça.

 

Sérgio - E que te inspira! [risos] É claro que todas as bandas de que ele falou também servem de influência para nós. Não posso é lembrar-me de todas.

 

João - SUFFOCATION! Falta SUFFOCATION.

 

 

BTTG - E, já agora, DEITY OF CARNIFICATION, não?!

 

Sérgio e João - Tschh… DEITY OF CARNIFICATION!...

 

Sérgio - Não falámos desses gajos, mas eles também são muito bons.

 

João - Grandes portugas, lá da Horda Cadavérica. [risos] Espectaculares.

 

 

BTTG - Da granítica cidade da Guarda. Os matarróides e os gandarróides.

 

Sérgio - [risos] Falta dar um concerto com eles. Temos que dar!

 

 

BTTG - Voltando a uma pergunta que te fiz e à qual acabaste por não responder, nomeadamente no âmbito da literatura (e eu não me referia ao subgénero ‘gore’), lêem por prazer, não gostam de ler ou como é? Que autores e/ ou livros mais vos marcaram (individualmente)?

 

João - Eu gosto de ler. Tenho pena de não ler mais - um pouco por falta de tempo e, se calhar, pela preguiça. Gosto muito de [H.P.] LOVECRAFT, claro - toda a gente gosta; TOLKIEN - antes de aparecerem estes filmes todos, já conhecia o Senhor dos Anéis e outros…

 

 

BTTG - Se bem que, sinceramente, goste mais do Silmarillion… Foi lá que tudo começou.

 

João - Sim, sim. Por acaso, é verdade. Gosto de [Patrick] SÜSKIND - O Perfume é um clássico.

 

Sérgio - Por acaso, já tenho esse livro em casa para aí há um ano e ainda não o consegui ler todo! Tenho lá a versão portuguesa, mas não consigo ler tudo, porque simplesmente perco a paciência. E depois, é do género: «Ah, eu amanhã leio, eu amanhã leio…», e assim sucessivamente.

 

 

BTTG - Mas vais ver que, assim que tomes o fio à meada, inteiras-te do livro e embriagas-te com aqueles aromas todos.

 

Sérgio - Já cheguei à parte em que ele está no estado adulto, e está a ficar interessante. Lá está: às vezes não tenho é paciência para estar a ler.

 

João - Há mais um, claro, o grande BAUDELAIRE, das Flores do Mal. O GOETHE, que escreveu o Fausto e outros. Portugueses, temos o FERNANDO PESSOA, et caetera, et caetera, et caetera.

 

 

BBTG - Também conheces EDGAR ALLAN POE, simplesmente um dos meus favoritos - se não mesmo o favorito? Por todos aquele ambientes macabros, pela hipersensibilidade dos sentidos. Tudo isto são temas recorrentes nos seus contos.

 

João - Do ALLAN POE não conheço muito. Já li várias coisas dele, mas não sei nomes de obras. Mas, enquanto escritor, ele exerceu grande influência sobre muita gente. Então dentro do metal nem se fala! Aliás, os escritores de que o pessoal do metal gosta acabam por ser sempre os mesmos [permite~me discordar ligeiramente de ti nesta parte - M]: é o Lovecraft, que toda a gente conhece e gosta; é o Tolkien, que toda a gente conhecia antes dos filmes…

 

 

BTTG - Toda a gente ou quase, porque, entretanto, também acabou por se estabelecer como moda dentro do metal. Deixando estes campos da literatura e passando para o cinema, há algum filme que vos tenha marcado mais profundamente?

 

Sérgio - Claro que o ‘Braveheart’ está lá. E viva a Escócia.

 

João - Viva muita coisa.

 

Sérgio - O ‘Spartacus’ e esses gajos todos. Adoro mesmo esse tipo de filmes… épicos. Sou grande fan desses épicos todos. Não dos épicos actuais, que aquilo é uma fantochada, falta-lhe o carisma. Venham-me cá agora com estes épicos tipo ‘Piratas das Caraíbas’ e essas coisas. [risos]

 

João - Por acaso, até acho que esse filme está fixe. Outros filmes… Sou um bocado esquisito nos filmes. Gosto muito de animação…

 

 

BTTG - Manga?...

 

João - Não, da Disney! Adoro a ‘Pocahontas’ [risos], ‘O Rei Leão’, o ‘Tarzan’.

 

Sérgio - Mas ele é mais por causa dos desenhos…

 

João - Sim, exactamente. Eu sou designer. E gosto muito de outros filmes: do ‘Brasil’, do ‘Fight Club’, dos dois que vi até agora do ‘Matrix’, todos os ‘Alien’. ‘Alien’ é aquela coisa…

 

 

BTTG - Então, como designer, acaba por se justificar. Mais não fosse [H.R.] GIGER a ter desenhado tudo, não é?

 

João - Claro, claro. O GIGER, para mim, é aquele gajo que…

 

 

BTTG - Que conseguiu, através do desenho, recriar um mundo de fantasia tal que quase se equipara ao mundo que Tolkien criou pela escrita…

 

João - De fantasia, embora o GIGER tenha um tipo de fantasia mais sensual, muito obscura e dedicada aos pensamentos, aos sentimentos. É uma referência para mim.

 

 

BTTG - Deixando estes domínio do imaginário e passando a outro mais concreto… Como têm sido as reacções ao vosso registo promocional, Bleeding Promotion?

 

Sérgio - Bleeding Promotion acabou por ser uma surpresa. É uma Bleeding Promotion, porque nem sequer chega a ser uma demo. Na gravação, as coisas não correram da maneira que nós queríamos. Estávamos à espera de uma coisa um pouco diferente, mas também não tivemos nem o tempo nem a disponibilidade financeira para conseguir fazer algo mais… ‘teatral’ [risos], algo mais sólido. Acaba por ser mesmo uma promoção, porque ‘demo’ remete para uma coisa mais séria. Exige que se perca mais tempo, dinheiro e mais disponibilidade para que se atinja algo com mais apresentação.

 

João - Voltando à pergunta, concretamente, em relação à receptividade da promo-CD… Tem sido bastante boa. Melhor do que estávamos à espera.

 

Sérgio - É como eu estava a dizer: não sendo isto sequer uma demo! Porque isto nem era para divulgar, era só para ficar para nós. Mas nós tomámos a decisão, por unanimidade entre mim e o João [risos], de nos darmos a conhecer às pessoas. Isto dá minimamente para as pessoas terem uma ideia daquilo que estamos a fazer. Isto é uma promoção dos inícios de 2002, mas decidimos que, enquanto não gravarmos alguma coisa mais oficial, vamos mostrando isto às pessoas. E felizmente as pessoas - de todo o mundo – têm gostado, têm-nos escrito e pedido…

 

 

BTTG - Até porque vocês fazem questão, não só de dar a conhecer, mas também trabalhar para dar a conhecer. Não me refiro aos contactos (essa parte é do João), mas em termos de concertos, vocês têm tido muita actividade nos últimos tempos. Recordo-me, aliás, da vossa actuação em Paredes, há cerca de duas semanas.

 

João - Nós só saímos de Lisboa, onde vivemos, nesse caso. E foi fantástico. E, aliás, temos tido imensa sorte por estar sempre imensa gente nos nossos concertos. As pessoas gostam, pedem-nos CD’s. E pronto, mal demos por nós, estávamos a tocar noutro país. Esperemos que seja só o início…

 

Sérgio - E espero que nós tenhamos sempre esta vontade e este empenho, que é o principal para levar a banda em frente… E começar a ganhar dinheiro…

 

 

BTTG - Porque ninguém vive de ar e vento, não é?

 

Sérgio - Não estamos a receber absolutamente nada. De todos os concertos que demos, apenas ganhámos 18 ou 19 contos, e não deu para absolutamente nada. Isto só te leva a ver que nós fazemos isto mais por gosto do que por dinheiro.

 

ertos, co corte ndo isto ,os a bntosa, hempre os mesmos [permite-me discordar de tiu

BTTG - Em termos de projectos para o futuro, já estão a trabalhar em algum registo?

 

Sérgio - Nós estamos, agora, em fase de concertos. Torna-se um pouco difícil termos tempo para estar em estúdio, ou a pensar em coisas muito concretas. Mas estamos a pensar aí numas músicas novas e, pelo menos até ao final do ano, quiçá tentar gravar qualquer coisa com aquela pujança que a gente espera.

 

 

BTTG - Para finalizar, gostariam de deixar alguma mensagem aos possíveis leitores da ‘Back to the Grave’?

 

Sérgio - Espero que continuem a apoiar o metal e que apareçam. Deixem a preguiça de lado e, se tiverem uma banda, apoiem para serem apoiados.

 

João - Eu gostava, antes de mais, de te agradecer pela entrevista. Oiçam metal, vivam e sintam o metal. E nós cá estamos para nos divertirmos.

 

Sérgio - Acima de tudo, levar isto na boa, sem stress, sem rivalidades, sem qualquer forma de pressão, porque convém ter os pés bem assentes na terra. Nós temos a consciência que provavelmente não iremos a lado nenhum! Isto não vai ser a minha forma de sustento. Acima de tudo, eu tenho essa consciência. E espero divertir-me e às pessoas. Faço isto porque gosto. Continuem a apoiar para serem apoiados e para fazermos disto uma espécie de família.

 

João - Não se esqueçam de visitar o site www.bleedingdisplay.com.

 

Sérgio e João - E muito obrigado pela entrevista.

 

 

By Morgana - Back To The Grave September 6, 2003

Photos - Cristiano and MysticCosmoS 2003

 

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